Distantes Trovões

14/11/2009 13:08

Agora também estou no portal Artistas Gaúchos. Vim aqui só para registrar, enquanto tomo um chimas e folheio as três cópias do meu rebento para conferir uma a uma das 163 páginas com espaçamento um e meio a serem enviadas para um concurso esta semana.

A luta continua.


enviada por Daniel Rocha



24/10/2009 15:01

Ah, sim. Para não dizer que deixei engavetado, este é o conto em menos de 400 caracteres para aquele concurso-do-café-granulado:


Esquento o café, tomo mais um gole, faço uma oração. Sorrio para o espelho, agradecido. Contemplo meu amor, espero a vinda da filha que ainda nem foi feita. Leio mais um conto, escrevo outro parágrafo. O dia cinza lindo, minuano do sul, nada pode esfriar meu espírito quando tenho um sonho a seguir.



enviada por Daniel Rocha



10/10/2009 06:35

Acordei hoje a fim de viver o dia de hoje, sábado de manhã, vendo e ouvindo o saudoso grande guitarrista Wander Taffo (muito fera, né, Wylde?) com os irmãos Busic no Xou da Xuxa em 1990, sweet memories, tocando “Pra dizer adeus”. Meu escritório está maravilhosamente bagunçado, e hoje vou lavar a louça ao som de Taffo. Enquanto tomo meu chimas e ouço os two hands de Taffo solando na Xuxa, que fazem meu espírito se elevar, decidi retomar uma reforma neste blog, que fiquei devendo para o Divan há tempos. Não sei bem como vou fazer isso, mas querer fazer já é um começo e tanto.

Aguarde novidades, Leitor Fiel do distantes trovões on line.



enviada por Daniel Rocha



15/09/2009 11:32

Ainda não é meio-dia, no primeiro dia sem chuva em uma semana, quando coloco pra rodar o Chickenfoot. Sente a line up: Sammy Haggar no vocal, Joe Satriani na guitarra, Michael Anthony no baixo e Chad Smith na bateria. Saber que existe um lance desses me faz continuar acreditando e manter a chama acesa, parecido quando soube do Velvet Revolver há alguns anos. Ia ver uns vídeos deles no youtube, mas o maldito flash player resolveu boicotar o meu computer, tudo porque caí na bobagem de instalar uma atualização pedida para ver a tal entrevista do Fabio Assunção, e agora não consigo ver vídeo nenhum. Pelo menos os mp3 funcionam e posso ouvir o Chicken, que descobri lendo uma entrevista de Michael Anthony em uma revista especializada sobre baixo. Vale a dica.

Semana que vem temos concurso de contos em Cachoeirinha, ainda tenho que decidir sobre que contos mandar, também vou escrever um mini pra matar as saudades, o conto do Nescafé em 400 caracteres, e sigo com minha novela. Não ando tão blogueiro assim, e é incrível como passar um tempo longe daqui faz meus dedos enferrujarem, mas tenho aprendido que escrever, o exercício diário da prática da escrita, é mais importante do que a necessidade de escrever bem, que pode bloquear – e bloqueia mesmo. Sinto uma saudadezinha do tempo distante das oficinas, ou de pelo menos ter um encontro semanal, um prazo e um compromisso de produzir sempre – faz uma grande falta ter alguém para discutir as angustias da criação, acredite.

Mas vamos nos virando do jeito que dá. Ainda não imprimi mais trechos da minha novela errante aguardando aquela bolsa para ler no papel (que não é, jamais vai ser, como ler no computador). Quem sabe acordo mais cedo e vou lá para meu ex-curso tomar um café no aquário da sala de estudos e trabalhar um pouco? Li a sugestão de acordar ali pelas 3, 4 da manhã para ler e escrever. Parece bem boa, ver o sol nascer, tomando um coffee, depois de já ter lido e escrito por um punhado de horas. Será que eu conseguiria? Você conseguiria? Bom, isso é assunto para amanhã. Por hora, acho que vou imprimir algumas páginas de meu novo rebento, fazer roncar a cuia, enquanto me apronto para picar a carne, a cebola, o alho e um pimentão – deu mais fome só de escrever – e armar aquele carreteiro. Ah, sim. Minha mãe apareceu no caderno de viagens da Zero Hora hoje. O texto de introdução é dela, sobre a Patagônia. Me despeço com “Down the drain”, acho que tem vídeo no youtube, aproveite você que tem um flash que funciona. Quem curte rock and roll nunca vai envelhecer.



enviada por Daniel Rocha



24/08/2009 16:57

But I ain't too young to realize

That I ain't too old to try.

Do além canta a voz de Bon Scott, orquestrada pelos acordes de Angus Young nesta jóia rara chamada "Ride on", que descobri recentemente. Um blues daqueles que gruda no ouvido, e daquelas melodias que dão aquela serena sensação de que nossas vidas estão fluindo, e indo para algum lugar seguro.

Esses dias estava comentando com Giuliano Wylde, meu grande camarada e fiel comparsa de rock and roll e ensaios no estúdio (enquanto não rola aquele galpão nos fundos de sua casa), me lamentando que ninguém lê este blog, ao que ele respondeu: ninguém comenta, mas pessoas que eu nem imagino lêem. Pode ser mesmo, porque de vez em quando ouço um "distantes trovões" de pessoas que eu jamais imaginaria. Mas enfim, sigo firme no meu compromisso de escrever diariamente - coisa que levei longos meses para conseguir - e as coisas estão vindo.

E pensar nesta antevisão das coisas que estão chegando me deixa feliz.




enviada por Daniel Rocha



21/08/2009 14:53

Para não deixar passar despercebido o mês das vocações, escrevo ao som de Jeff Healey, o genial e saudoso blueseiro cego que tocava com a guitarra deitada no colo tocando sua versão de “Shapes of Things”, que fez meu espírito flutuar sábado passado e me fez ver, mais uma vez, que tudo é possível. Coisas boas vindo aí, já antevejo com convicção – mas deixa eu ficar na minha uma vez na vida, antes do rufar de tambores e o momento-holofotes.

Desde algum tempo, tenho conseguido o milagre de escrever – com compromisso – religiosamente todas as noites. Não dormir sem escrever: uma frase, duas frases, um parágrafo, um página inteira, não importa. Desde que seja diário. Comecei faz pouco o magistral “Oficina de Escritores”, de Koch. Quem escreve tem que ler. Tem algumas pérolas como: só existe uma maneira de começar. É começar agora. "Escreva depressa, ande sempre com um bloquinho, não confie na memória". E diz que a fé, a convicção e a técnica só se adquirem com a escrita, e não o contrário. Segundo Koch, e os vários autores que cita, todos os escritores do mundo são inseguros. Mesmo tendo uma certa petulância de escreverem o que pensam, têm uma necessidade de aprovação.

E acrescenta que para se ter o dom, é preciso ter coragem. Sem ela, nem esse nem qualquer outro dom (ou vocação) vai muito longe. Então seguimos, plantando e plantando. Não mais como uma breve esperança, mas com convicção. E coragem.



enviada por Daniel Rocha



25/07/2009 14:17

Enquanto leio sobre o Dia do Escritor, hoje, e o que cada um acha que deve significar o ofício, Sonny Rollins sola All the things you are, e penso em todas as coisas que você é, que eu sou, que podemos ser, que ainda seremos e que, como disse Luther King, graças a Deus não somos mais. Tenho conseguido escrever todos os dias, gerando aos poucos meu nascituro livro, esculpindo com dificuldade cada palavra, cada frase. Nenhum dia sem uma frase(zinha). Como é difícil escrever, lutar como contra o Mike Tyson, com uma infinidade de diabinhos como a preguiça, a procrastinação e a fé nem sempre tão convicta.

Meu brinde hoje é com café e chantilly, chimas na tarde, escrevendo em casa solito com Sonny. E pensando em todas as coisas que você é. Que nós somos, que vamos ser, que havemos de ser.



enviada por Daniel Rocha



12/07/2009 01:21

Coincidentemente ou não, enquanto escrevia o post abaixo, morria Michael Jackson, e o texto de hoje era para ter registrado minha emoção ao ver duas vezes no mesmo dia a cerimônia de seu funeral, talvez em especial pelas palavras de Martin Luther King III, citando seu pai, dizendo que temos que encontrar nosso dom, e que existe um chamamento de Deus para que a gente faça alguma coisa, e depois que a gente descobre o que é, tem que perseguir ser o melhor, fazer nossa luz brilhar, mesmo que seja varrer ruas. Que a gente varra ruas como Beethoven escrevia suas músicas, como Shakespeare escrevia suas poesias, como Rafael pintava seus quadros. E então céu e terra dirão “aqui viveu um varredor de ruas que fez o seu trabalho muito bem”.

Não lembro se já comentei por aqui, mas alguns meses depois que batizei o livro que estou escrevendo, descobri que Michael Joseph Jackson compôs uma música com o mesmo nome, e senti uma onda bem espiritual quando ouvi trechos dessa música no tributo. Como, citando o discurso de Luther King, se Deus Altíssimo estivesse me convidando para escrever. Palavras bonitas, mas que se não colocadas em prática são poesia, mas jogada ao vento. Então, finalmente terminei de ler a cópia do 1/3 de livro que mandei para a Biblioteca Nacional, concorrendo a uma bolsa com mais 642 carinhas, cujo resultado sai daqui a alguns dias, e comecei a rabiscar o segundo de três capítulos. Daqui a algumas horas teremos o concurso para o qual fiz curso nos últimos meses, e neste começo de madrugada uma gripe se insinua. O edredom às minhas costas está altamente convidativo. Vou rabiscar umas mal traçadas antes, e depois sonhar com as palavras de Martin:

Seja um arbusto se você não pode ser uma árvore. Se não pode ser uma rodovia, seja uma estradinha. Se não pode ser um sol, seja uma estrela. Porque não é pelo tamanho que você ganha ou perde. Seja o melhor de seja lá o que você for.

Que todos nós possamos ser inspirados a seguir e deixar nossa luz brilhar.



enviada por Daniel Rocha



25/06/2009 18:17

Hoje.

Hoje decidi escrever porque é dia 25. E amanhã vou escrever porque será 26. Semana que vem, 29 e 30, e assim vamos, um dia de cada vez. Now’s the time. Aliás, tinha escolhido o clássico de Charlie Parker para servir de trilha hoje, mas fuçando no youtube achei Cannonball Adderley at the Village Vanguard, e é isso que vou guardar como o espírito do momento.

Hoje escrevi as primeiras frases do segundo de três capítulos do meu novo rebento. E hoje começou o julgamento do 1/3 de livro concorrendo a uma bolsa da Biblioteca Nacional, aí do post abaixo. Sim, consegui escrever tudo a tempo, e mandei por Sedex com AR, que aliás ainda não chegou na minha casa, mas como dizem que Deus está no controle da espaçonave, estou em paz. O legal é que, pela primeira vez em tempos, escrevi pelo prazer único de escrever. Só isso. Sentar e escrever, simplesmente, não é a mesma coisa que sentar e escrever uma obra que vai mudar os rumos da literatura, nos render fortuna e glória e – claro – uma entrevista no Jô.

Hoje só quero escrever este livro, e seguir escrevendo até o fim. Digamos: o segundo capítulo até o fim de setembro e o terceiro até a metade de dezembro. Com um pouco de disciplina, mais o exercício diário, até que seja algo natural. Ler muito, escrever muito. Não tem atalho. Nem influências de fora, rufar de tambores. Apenas o dia de hoje. O passado não existe, o futuro se semeia hoje. Aqui e agora. O melhor momento para viver, para ser feliz. Para tentar. E tentar está acima de ganhar ou perder. É a parte que nos cabe. O resto está nas mãos do piloto da espaçonave.



enviada por Daniel Rocha



11/06/2009 02:49

A parte boa é que acabo de concluir o 1/3 do livro que precisava para concorrer a uma possível bolsa. A parte ruim é que hoje é feriado de Corpus Christi e amanhã, Dia dos Namorados, é o último dia para mandar o livro por Sedex. Se os correios e os xerox (tenho que tirar cópias, do livro e de alguns documentos) fizerem feriadão, babaus. Bom, mas aí – como sempre – está nas mãos do Divino. A minha parte eu fiz. Minha coluna que o diga. Hoje, inclusive, depois de uma semana procrastinando desde o post abaixo, consegui ir para a sala-aquário de estudos do curso e fazer os ajustes finais no texto. Claro, falta aquela revisão básica antes de imprimir e encadernar. Mais o cronograma dos meses em que será construído o restante da narrativa.

Enquanto isso, aproveito o chimas na madrugada fria de Porto Alegre.

Morfeu me chama.

Missão cumprida por hoje.



enviada por Daniel Rocha



03/06/2009 17:48

"O escritor não precisa de liberdade econômica. Tudo de que precisa é de lápis e papel. Eu nunca soube que algo bom em literatura tivesse se originado da aceitação de uma oferta gratuita de dinheiro. O bom escritor nunca pede auxílio a uma instituição cultural. Está ocupado demais escrevendo alguma coisa. Se não é um escritor de primeira classe, ilude-se dizendo que não tem tempo ou liberdade econômica. Pode surgir arte boa de assaltantes, contrabandistas ou ladrões de cavalos. As pessoas na verdade têm medo de descobrir que podem suportar muita adversidade e pobreza. Têm medo de descobrir que são mais resistentes do que pensam. Nada pode destruir o bom escritor. A única coisa que pode alterar o bom escritor é a morte. Os bons não têm tempo para pensar no sucesso ou em ganhar dinheiro. O sucesso é feminino e como uma mulher; se você se curva diante dela, ela passa por cima de você. Então o jeito de tratá-la é dar-lhe as costas da mão. Aí, talvez, ela venha a rastejar".

William Faulkner



Aos primeiros minutos de junho, soube da possibilidade de uma bolsa para se escrever um livro, durante alguns meses, desde que ele esteja 1/3 escrito até o Dia dos Namorados. Aí pensei que - et voilá - a história na qual tenho me amarrado tem justamente três capítulos. Nenhum concluído, claro, mas tudo o que tenho que fazer é terminar o primeiro nos próximos dias.

E então, com o término do curso por onde andei todas as manhãs nos últimos meses, e eu preocupado em encontrar um lugar sereno para escrever, ao sair da aula hoje me dei conta que eles têm salas de estudo que ficam de banda. E tive a maravilhosa idéia de continuar levantando cedo nesse frio e ir lá produzir, rabiscar, ler livros. Dá até para - imagine - estudar. Quer dizer, se meu trabalho é escrever, como todo mundo, tenho que trabalhar.

Hoje conheci a história de um cara que disse para um tetraplégico parar de reclamar e seguir lutando, e graças a isso ele viveu mais 22 anos, fazendo palestras, feliz da vida. Na última agência que trabalhei, long time ago, a dona da empresa, quando me chamou na salinha para dizer que meu contrato não ia ser renovado, disse que se eu levantava às 7 para ir pra lá, que levantasse às 7 e fosse escrever. Na verdade, eu levantava às 6.

E é o que vou fazer nos próximos dias. E não pra ganhar a bolsa, ter sucesso, grana, whatever. Simplesmente porque escrever é o maior barato, e escrever é o meu lance. Simple as that. E levo isso tão a sério que vou até pular das cobertas neste frio horrendo. E trabalhar um pouquinho.




enviada por Daniel Rocha



23/05/2009 18:44

Depois que a doce Alice P. me pediu para ler um conto meu, encontrei este, que está completando dez anos, e que fazia parte da versão original do "Distantes Trovões", além de ter sido incluído no Contos de Oficina 25. Os leitores mais antigos deste blog provavelmente irão lembrar.

Minha mãe adorava este conto, por isso resolvi dedicar a ela.


* * *


A VIDA NÃO VAI ESPERAR

Para Eneida,
a mãe de nome épico.


Ele está lá fora. Me esperando, como um animal selvagem espera a sua vítima. Ele quer me olhar nos olhos. Sabe que não tenho como fugir e também sabe que falta pouco para que nos encontremos de novo. Ao abrir da porta, a luta recomeçará.

Tem um furacão lá fora. Insistente, pegajoso. Ele já arrastou mulheres, minhas não sei. Amigos, que também se diziam meus. O Furacão já arrancou desejos, sonhos que agora estão acordados – e nem por isso realizados. Roubados foram por ele, o Furacão, pedaços recortados e peças gigantescas: quebra-cabeças inteiros de minha vida. Nós temos contas a acertar. Os grãos que caem da ampulheta estão quase no fim. Não há volta. A hora está chegando. O momento final. Me arrepio e me entonteço quando penso nele, o Momento, mas ao mesmo tempo essa espera é o que me mata. Olho pela janela e o Sol me diz que são seis, sete horas. Falta muito pouco agora.

O Furacão continua lá. Uma das poucas certezas que tenho é que ele não vai ir embora – pelo menos, não até eu sair. O Tempo é seu aliado. Quero crer que Deus está comigo, mas não sei até que ponto posso contar com Ele. Não é blasfêmia, é que. Talvez Ele mesmo tenha mandado o Furacão, sim, é isso: Ele criou o Furacão. Tudo isso faz parte de um ritual. Deus quer ver se eu sou digno. O Furacão quer que eu prove.

Não tenho espadas. A única arma que possuo é minha mente. Alguém cochicha em meu ouvido que é só do que preciso. Olho para os lados e não vejo ninguém, apenas o Furacão me esperando além da porta. Devo manter minha arma, minha única arma, sadia. Penso em prometer cuidar melhor dela se eu sobreviver desta vez, mas estou cansado de promessas que jamais serão cumpridas. “Talvez este seja o momento para promessas que jamais serão cumpridas”, alguém cochicha de novo. Sorrio. Então, existe esperança?

Despreocupado, à frente de minha porta, o Furacão ri. Ele sabe que é o primeiro dos Cinco Desafios que terei que enfrentar até que possa descansar novamente. Lutarei sozinho, mas lutarei. E não vou ser vencido fácil, Furacão. Agora eu estou mais forte, mais forte do que jamais estive.

Nós temos uma relação. Independente de quem vença, ele sempre volta. Na mesma hora, no mesmo dia. Dessa relação depende minha existência. Ela pode até me trazer benefícios, mas não há tempo para filosofar agora. Chegou a hora. Ou ele me vence ou eu a ele. “A vida não vai esperar”, alguém cochicha pela última vez antes de eu me levantar. Já sangrei muito, mas isso não importa. Nada que tenha vindo antes de Agora importa mais, apenas e exclusivamente O Que Está Por Vir. O último grão da ampulheta acaba de cair. A janela, inerte, compactua: são seis, sete horas, o Sol avisa. Hora de sair.

Me levanto. Ao meu redor, uma última visão me é concedida. Este instante é único, mais único que todos os outros. Depois dele tudo vai ser diferente – pelo menos até a próxima vez em que eu travar semelhante luta. Isso, se sobreviver. Me ponho a caminhar. Estou pronto, Furacão. E mesmo que não esteja, estou indo ao seu encontro. Pode vir com tudo, pois eu irei também. Venha que minha alma quer briga. E que também venham os outros quatro, completando os Cinco Desafios que me foram impostos. “Deus, não me abandone”, quase imploro. Saio do meu quarto, desço as escadas, termino o corredor rumo à porta de saída. Respiro fundo e sinto o coração bater forte. Às vezes medo, às vezes frustração, sempre ansiedade. Abro a porta e me deparo com o Furacão, como há uma semana. A luta tem início.

Aqui começa mais uma Segunda-feira.



enviada por Daniel Rocha



10/05/2009 23:51

Mesmo moído de cansado, queria hoje quebrar um jejum de ficção, e publicar um conto já conhecido dos leitores mais antigos deste blog, mas que acabei não incluindo na última versão do “Distantes Trovões”, publicada aqui algumas semanas atrás. Faz nove anos que o escrevi, e foi oriundo de um trabalho de redação publicitária (vejam vocês...) da facul. A professora tinha pedido para fazer um texto no qual houvesse uma mulher, um carro e um batom, e deu nisso. Alguns meses mais tarde, ele foi publicado no Contos de Oficina 25.


* * *


CICLO


A menina nua pós-recém-nascida veio engatinhando do Nada. O sol nasceu para ela, clareando a imensidão vazia. A sua volta, nada, exceto: o próprio Nada, um automóvel e uma estrada. Vamos chamar esta menina de Dona. Ela dirigiu-se até o automóvel, que estava parado logo no começo da estrada, adentrando-o. E a porta até então aberta, selou-se. O carro nada tinha de extraordinário. Assim mesmo, inofensivo aos olhos mais matemáticos. Vamos chamá-lo de Tempo. No instante seguinte ao fechar da porta, a jornada de Dona teve início. A estrada era comprida, aparentemente toda em linha reta, transpassando o horizonte. Havia algo ao redor dela, com certeza, mas era nebuloso demais para que os acontecimentos do lado de fora pudessem ser entendidos. Vamos chamar essa estrada de Vida.

Uma das primeiras imagens que Dona viu ao olhar para a estrada foi uma mulher, sua mãe, retocando a pintura de uma jovenzinha que recém tinha aprendido a falar. A menina começou a caminhar, foi para o colégio, machucou o joelho, ganhou um vestido novo (idêntico ao que Dona estava agora usando, já cinco anos mais velha). Usando sempre o batom colocado meticulosamente pela mãe, para depois ser exaltada como a filha mais bonita do bairro. E ela era.

A estrada começou a tomar rumos diferentes (e que levavam a outros rumos diferentes), assumindo curvas no início imperceptíveis. O automóvel por vezes diminuía até quase parar – sem nunca, contudo, parar, pois todos sabem: não podia parar. Sempre era dada a opção de escolher o caminho a Dona.

A garota dentro do carro, agora adolescente, estava com um batom forte, sombra e base, a maquiagem pesada. Na estrada, um amontoado de cenas que eram quase atropeladas pelo automóvel: as festas, a entrega de boletins no colégio, o primeiro baseado, uma conversa sobre menstruação com a mesma mulher que lhe colocava batom, ligeiramente mais velha, a extensa coleção de bichinhos de pelúcia, algumas garrafas surrupiadas da adega do pai compartilhadas às gargalhadas com as amigas, as conversas sobre os meninos. Uma ou outra lágrima não vista. Dona estava com uma faixa em torno do corpo. A menina havia sido eleita a rainha da escola. Começaram as propostas, os telefonemas. Dona ganhou concursos de beleza. Namorou rapazes, recusou convites, figurou nos jornais. As pessoas da família apareciam com uma freqüência menor na estrada.

O automóvel acelerou. Muito mais mulher do que garota, que até então estava no colegial, cursava agora a faculdade de Direito, envolvendo-se em movimentos estudantis e falando em público. Sua maquiagem dentro do carro diminuiu de forma considerável. Dona começou a notar que o veículo parecia estar parado vez ou outra, mas quando ele transpunha as estações ou a cada aniversário dela celebrado de forma abundante todos os anos, ela tinha a vertiginosa epifania: ele iria cada vez mais acelerar.

Dona viu de relance o seu casamento com um homem rico, o nascimento das filhas, as audiências no tribunal, as idas ao banco e as reuniões do colégio às pressas, alternadas a extensas e constantes viagens a Paris, Viena, Berlim. Pela estrada passou a maioria da Europa e dos Estados Unidos. O carro cada vez mais rápido. O batom voltou a atenuar-se (tanto fora quanto dentro do carro). Alguns membros da família apareciam esporadicamente pela estrada, outros não apareceriam mais. E mesmo que algumas rugas começassem a surgir nas mãos da mulher dentro do carro, continuava elegante e vistosa: Dona estava seminua ali dentro, apenas a calcinha cobrindo seu sexo. Seu corpo estava demarcado pelo batom, tal qual uma rede. Deixando-a linda, porém aprisionada. Os seios babilônicos, as pernas milimetricamente depiladas, a barriga rígida dos abdominais. O branco da única peça de roupa que vestia entrecortava o batom roxo do corpo. Roxo, não vermelho. Suas mãos acariciavam a si mesma, com o cuidado de quem segura um tesouro inestimável: primeiro massageando os seios, depois descendo. E tocando.

O automóvel segue acelerando, sem esperar por ninguém. Entre curvas e derrapadas que quase jogam Dona para fora da estrada, ele segue. Nada pode pará-lo.

E então, o automóvel passou. Ao olhar para trás, lá atrás, quase no horizonte, Dona viu seus parentes desfilando, as celebrações, as mazelas, as frases não ditas. Os momentos não vividos. As fotografias não tiradas. A mulher dentro do carro estava com quase cem anos. No entanto, o automóvel tinha percorrido aquela estrada em uma sucessão de instantes. Dona chorou ao constatar que aquela estrada era uma via de mão única e o carro não possuía marcha à ré. Segurou encolerizada o batom, símbolo máximo daquele, dentre os sete Pecados Capitais, que julgou ser o maior responsável por ela não ter conseguido guiar o carro da maneira correta. A estrada havia chegado ao fim.

A porta do carro se abre. Dona não está mais lá. O automóvel permanece no início de uma estrada comprida, aparentemente toda em linha reta, transpassando o horizonte. É neste momento que aparece em sua direção uma menininha engatinhando.




enviada por Daniel Rocha



01/05/2009 12:00

Hoje que é dia de El Fuego, começando maio – e Dia do Trabalho, anyway –, fui olhar uns posts antigos de onde se originou a história de El Fuego, lá em San Carlos de Bariloche, coletando pedras na beira do Nahuel Huapi, orando em frente aos cerros e suas copas cheias de neve, e acabei lendo uma ou outra frase sobre a conjuntura do momento. Nossa, três anos atrás. Tinha recém começado a escrever meu então novo livro. E jurava que aquela cidade ia me fazer escrever, que a cuia e a bombilla de chimarrão que comprei iam me fazer escrever, que o outono ia me fazer escrever, que o ano novo, que março, etc + etc + etc.

Tinha me comprometido a escrever o livro em três meses. A história é contada em três capítulos. E lá se vão três anos. E nem terminei o primeiro. Quer dizer, terminei. Mas achei que podia render mais. E meu espírito (e o do Sr. Narrador) são outros hoje. Aí fica mais complicado, mas no fundo é melhor escrever e rasgar, escrever e tocar fogo, escrever e jogar numa gaveta do que: não escrever. Passei meses atrás do nome de um livro que falava das obras que jamais serão lidas, porque os originais se perderam ou os autores morreram antes que terminassem a história, por problemas de saúde ou se amarrarem demais para escrever. Ou desistiram no meio do caminho. Ou se perderam nos inúmeros incêndios da Biblioteca de Alexandria, até o incêndio definitivo em 646 D.C.. O que teria mudado na literatura mundial se esses livros realmente existissem? O nome do livro em questão é “O livro dos livros perdidos – Uma história das grandes obras que você nunca vai ler”, de Stuart Kelly, e humildemente penso em minha historinha como outra candidata à lista.

Os desafios hoje, claro, também são outros. Temos um concurso mês que vem, quilos e quilos de matéria para estudar, que seguem ao lado da Matrix querendo trazer mais um para a lista, já bem extensa. Ainda lá atrás, pensei em como tinha me comprometido a escrever uma carta por semana, desde que li algumas das missivas da extensa correspondência de Cortazar, e lembrei do que li de Stephen King no livro “El Taller de Escritor” (por que não comprei esse livro?), que para ser escritor você tem que ler muito e escrever muito. Não tem outro jeito, não tem atalho. O compromisso com as cartas toda semana deu certo: por uma semana. Mas... isso tudo é papo. O que importa é o que vamos fazer da vida HOJE, e depois de muito procurar encontrei a trilha de hoje (vai lá no youtube), Don Cherry e Herbie Hancock tocando “Bemsha Swing”. Ron Carter no baixo, Billy Higgins na bateria, que cozinha. Não sei se o jazz, o outono, o chimarrão, a fé, o “Incenso do Mago”, a possibilidade de livros perdidos para sempre me farão escrever.

Mas vou continuar tentando.


* * *


Para encerrar, uma breve homenagem a El Fuego, para você que fala espanhol melhor que eu (o texto integral está em http://eltallerliterario.com.ar/taller-de-escritura/por-que-escribo-george-orwell#more-1371), nas palavras de George Orwell:

Desde muy corta edad, quizá desde los cinco o seis años, supe que cuando fuese mayor sería escritor. Entre los diecisiete a los veinticuatro años traté de abandonar ese propósito, pero lo hacía dándome cuenta de que con ello traicionaba mi verdadera naturaleza y que tarde o temprano habría de ponerme a escribir libros.



enviada por Daniel Rocha



19/04/2009 23:13

"Mexa-se", diz o livrinho de meditações diárias, e penso que realmente amanhã é nunca. Escrevi um post ao som do disco "Change", do grande guitarrista Richie Kotzen, que orquestra a primeira noite do primeiro dia realmente digno de um outono, cinza e frio, lindo, falando em mudança, citando o refrão "everything is gonna change, but nothing is gonna change 'til you change", mas o post se perdeu. Whatever, escrevo hoje, que continua sendo o dia mais importante da minha vida, o único que posso viver, o único que posso tentar fazer diferente. E colocar ação.

Meu um pouco eterno livro continua concluso aos júris divinos. Enquanto isso, sigo rezando por boa vontade e fazer minha nova história caminhar, mas já entendi que sou eu, e não o Altíssimo, que tem que escrever. Bem, todos nós escrevemos (Ele principalmente). Aproveitando o feriado de home alone, lendo a biografia de Clapton, página aberta do caderno na aula sobre crase, anotações sobre os incisos do artigo 5º da Constituição Federal a minha volta. Na eterna busca por fazer a vida seguir em frente, amanhã levantaremos cedo, véspera de feriado e da estréia (ainda quero escrever com acento, so what?) do Flight 666 do Iron "Gods" Maiden no cinema.

A escrita, se não usada di-a-ria-men-te, enferruja. O cérebro atrofia sua própria sintaxe. Ainda nem jantei, e já me pergunto se devo responder outra carta, continuar lendo minha biografia, ou tentar fazer andar a cena de Carol perguntando a Garibaldi por que Jimmy queria um encontro e tinha que ser naquele dia, inciso IX – é livre a expressão de atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.

Enquanto decido, vou esquentar meus nuggets.



enviada por Daniel Rocha






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